Deputados votam por 42 a 21 pela revogação da prisão do presidente da casa, que agora aguarda decisão de Alexandre de Moraes
Esquerda e deputados de direita: Célia Jordão (PL), Douglas Ruas (PL) e Márcio Gualberto e Rosenverg Reis (MDB) também foram contrários a soltura de Rodrigo Bacellar.Alerj aprova soltura de Rodrigo Bacellar em sessão marcada por tensão e divisão política
A Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) viveu momentos de alta tensão neste domingo (8), quando deputados aprovaram, por 42 votos favoráveis, 21 contrários e 2 abstenções, a revogação da prisão preventiva do presidente da casa, Rodrigo Bacellar (União Brasil).
A decisão, que dividiu profundamente o plenário entre aliados e opositores, será agora publicada no Diário Oficial e encaminhada ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, que determinará as condições para eventual soltura do parlamentar.
O clima de confronto tomou conta do plenário durante toda a sessão, exigindo a intervenção da segurança da casa para evitar que discussões acaloradas evoluíssem para agressões físicas.
A polarização refletiu não apenas questões jurídicas, mas também alinhamentos políticos que transcendem as tradicionais divisões partidárias, evidenciando o impacto do caso na política fluminense.
Acusações graves motivam prisão preventiva
Rodrigo Bacellar encontra-se preso preventivamente desde que a Polícia Federal deflagrou operação que o acusa de ter vazado informações sobre investigação que resultou na prisão do ex-deputado TH Joias, investigado por envolvimento em esquema de tráfico internacional de drogas.
As acusações apontam que o presidente da Alerj teria comprometido a integridade das investigações ao repassar dados sigilosos, configurando possível obstrução à Justiça.
A gravidade das imputações levou à decretação da prisão preventiva, medida excepcional que visa garantir a ordem pública e evitar interferências no curso das investigações.
O caso ganhou repercussão nacional por envolver o presidente de uma das principais casas legislativas do país e por suas possíveis ramificações no combate ao crime organizado no estado do Rio de Janeiro.
Aliados contestam fragilidade das provas
O deputado Alexandre Knoploch (PL) emergiu como um dos principais defensores de Bacellar, questionando veementemente a solidez das acusações.
"Em nenhum momento o deputado foi sequer chamado para depor na Polícia Federal. A situação criada é muito grave", declarou, argumentando que a ausência de oportunidade de defesa prévia compromete o devido processo legal.
Knoploch também reagiu às especulações sobre a proximidade entre Bacellar e TH Joias, afirmando que "muitos aqui tratavam TH Joias com beijo e abraço — inclusive gente da esquerda". A declaração visava desconstruir narrativas que tentam vincular exclusivamente o presidente da Alerj ao ex-deputado investigado, sugerindo que as relações políticas eram mais amplas do que se pretende demonstrar.
A deputada Índia Armelau (PL) adotou tom ainda mais contundente, criticando colegas que se afastaram de Bacellar após a crise.
Quando tudo é festa, tudo tá maneiro. Mas quando o pau canta, até alguns da direita são covardes. Eu não sou", declarou, denunciando o que considera oportunismo político de parlamentares que mudaram de posição conforme a conveniência.
Oposição defende manutenção da prisão
A esquerda se posicionou firmemente pela manutenção da prisão preventiva, com o deputado Flávio Serafini (PSOL) argumentando que os elementos apresentados são "graves demais, gravíssimos".Para ele, a medida cautelar representa instrumento fundamental no combate ao crime organizado e deve ser preservada para garantir a efetividade das investigações em curso.
Carlos Minc (PSB), que já havia manifestado posição divergente na Comissão de Constituição e Justiça, reforçou que a votação não representa condenação antecipada, mas reconhecimento da necessidade de preservar a integridade investigativa.
"Votamos pela manutenção da prisão e pelo afastamento, não estamos condenando o deputado Bacellar. Estamos dizendo que a decisão da Justiça é correta diante do poder que ele exerce e da capacidade de influência que possui", explicou.
A bancada de esquerda na Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro) é composta por 15 deputados, incluindo 6 do PT, 5 do PSOL e 2 do PSB e 2 do PCdoB.
Divisões internas na direita revelam complexidade política
Surpreendentemente, parte significativa da direita também se posicionou contra a soltura de Bacellar, evidenciando que as divisões transcendem alinhamentos ideológicos tradicionais. Rosenverg Reis (MDB), declarado adversário político do presidente da Alerj e irmão do ex-secretário Washington Reis, fez questão de ser o primeiro a votar pela manutenção da prisão.
Outros deputados conservadores, incluindo Célia Jordão (PL), Douglas Ruas (PL) e Márcio Gualberto, também contrariaram expectativas ao votar contra a soltura. Essa fragmentação revela que questões pessoais, disputas internas e avaliações individuais sobre a gravidade do caso superaram alinhamentos partidários automáticos.
Próximos passos dependem do STF
Com a aprovação da revogação pela Alerj, a decisão final sobre a soltura de Rodrigo Bacellar recai sobre o ministro Alexandre de Moraes, que analisará o pedido de habeas corpus. O magistrado deverá avaliar não apenas os argumentos apresentados pela defesa, mas também o impacto da decisão parlamentar no contexto jurídico mais amplo.
A expectativa é que Moraes estabeleça condições específicas caso decida pela soltura, podendo incluir medidas como uso de tornozeleira eletrônica, proibição de contato com investigados, afastamento de funções públicas ou outras restrições que garantam o prosseguimento das investigações sem interferências externas.
Repercussões na política fluminense
O episódio marca momento crítico na política do Rio de Janeiro, evidenciando as tensões entre poderes e os desafios do combate ao crime organizado. A divisão observada na Alerj reflete polarizações mais amplas da sociedade sobre temas como presunção de inocência, efetividade do sistema judicial e limites do poder político.
A decisão final de Alexandre de Moraes será aguardada com expectativa por todos os setores políticos, pois estabelecerá precedentes importantes sobre como casos similares serão tratados no futuro. O desfecho também influenciará significativamente os rumos da política fluminense e a capacidade da Alerj de manter sua funcionalidade institucional em meio à crise.
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